sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Ponte sobre o Madeira para unir o Acre ao país começa a ser construída

31/10/2014 - Valor Econômico

Território que se transformou em Estado em 1962, com uma população que se aproxima das 800 mil pessoas, o Acre permanece isolado do resto do Brasil por via rodoviária. A única forma de chegar ao Estado, de qualquer ponto do país, sem recorrer ao avião, é a bordo de duas modestas balsas que atravessam o rio Madeira na fronteira entre o Acre, Rondônia e a Bolívia. Promessa antiga, a construção de uma ponte no local começa a sair do papel, fomentando expectativas de ganhos econômicos e maior integração regional.

A travessia é feita na BR-364, na altura do distrito de Abunã, que apesar da distância de mais de 200 km do centro, pertence ao município de Porto Velho. A poucos metros da beira do rio, uma placa do governo federal anuncia a construção da "ponte do Abunã", projeto incluído no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O informe aponta o início da obra em dezembro de 2013, mas os trabalhos começaram há poucos dias. Apesar do atraso, a previsão de entrega do empreendimento foi mantida em dezembro de 2016.

Até lá, o caminhoneiro Lucélio Souza Silva seguirá sua rotina na balsa. A carreta abarrotada de frutas atravessa o Madeira duas vezes por semana desde 2007. A principal queixa do motorista, contudo, não é a tarifa de R$ 92 cobrada a cada viagem na balsa do Abunã, mas o tempo perdido na travessia, que pode chegar a duas horas e meia, dependendo do movimento. "De noite é pior, porque a gente disputa a balsa com os caminhões-tanque", explica Lucélio.

Justamente por não haver acesso rodoviário, todo o combustível que abastece o Acre tem de passar pela balsa do Abunã. Um píer exclusivo para os caminhões-tanque funciona somente durante o dia. Como esse tipo de carga tem de viajar sozinha na embarcação, o tempo de espera à beira do rio fica bem mais longo à noite, explica o empresário Jucivan Santa Cruz, que vende confecções no eixo Rio Branco- Porto Velho.

Caminhões de todos os tipos e tamanhos são maioria na balsa do Abunã. Nas duas travessias feitas pela reportagem do Valor, eles transportavam frutas, vidro, material de construção e alimentos, entre outras cargas. A depender do porte, um caminhão carregado pode pagar até R$ 150 para chegar ao outro lado do rio. A tarifa para veículos de passeio está em R$ 15,50. Carroças pagam R$ 15, motos, R$ 4,50 e pedestres desembolsam R$ 1,55. Cerca de mil veículos usam a balsa diariamente.

O serviço de travessia é prestado há pelo menos 22 anos pelo deputado federal Roberto Dorner (PSD-MT), conhecido na região como "o rei da balsa". Como empreendedor individual ou por meio das empresas Amazônia Navegações e Rodonave Navegações, ele opera transporte de cargas, veículos e pessoas em vários pontos da bacia Amazônica. Além do Madeira, tem negócios nos rios Xingu e Tapajós.

As autorizações registradas na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) foram concedidas por prazo indeterminado. No caso específico da travessia do Abunã, o parlamentar é autorizado a prestar o serviço desde 1992, mas há quem garanta que ele está ali há muito mais tempo. "Tenho comércio aqui faz mais de 40 anos e quando cheguei já era o doutor o dono da balsa", conta Wanderleia Pinheiro Gomes, a Lalá, que vende bebidas e sanduíches na entrada da balsa.

Questionada, a assessoria de imprensa da Antaq informou que o caráter ilimitado das autorizações concedidas está previsto na lei que regulamentou a criação da agência, em 2001. A justificativa é que colocar um prazo final na autorização poderia configurar uma relação contratual entre o governo e o prestador do serviço, o que não é o caso. A Antaq não soube informar precisamente desde quando o deputado oferece transporte por balsa na região amazônica, alegando que a operação é anterior à criação da autarquia.

O Valor apurou em Porto Velho que a atuação de Dorner vai além de apenas operar as balsas. Suas empresas também constroem e comercializam as embarcações. Ao deputado são atribuídos outros negócios, como fabricação de bebidas e produção de soja e milho na região Centro-Oeste.

A reportagem visitou três vezes a sede da Rodonave Navegações, que fica em um sobrado no bairro de São Sebastião, em Porto Velho. Os funcionários, entretanto, não abriram a porta e se recusaram a prestar quaisquer informações. Procurado em Brasília, o deputado informou, por meio de sua assessoria, que não iria se manifestar.

Se para alguns, a construção da ponte vai agilizar a chegada de mercadorias e serviços ao Acre, para outros a perspectiva é incerta. É o caso de Luís Carlos Araújo, piloto da balsa e morador de uma pequena vila construída à beira do rio para os funcionários de Dorner. Ele vai e vem de uma margem a outra do Madeira desde 1998 e ainda não sabe o que vai fazer quando a ponte ficar pronta. "Acho que vou voltar para o Pará", diz.

Licitada em 2013 pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), a obra da ponte do Abunã está a cargo do consórcio Arteleste / Enersil e vai custar R$ 128 milhões. De acordo com o superintendente do órgão federal, Fabiano Martins Cunha, estão sendo feitas atualmente as fundações da ponte. O projeto executivo, porém, ainda está em análise.

Após anos cruzando o Madeira, muitos usuários da balsa ainda não sabem ao certo o que esperar da ponte. O caminhoneiro Lucélio, por exemplo, nem chegou a calcular quanto deixará de gastar para fazer a travessia na balsa toda semana. Ao ser informado de que não haverá cobrança de pedágio na ponte do Abunã, ele franziu a testa: "Não é possível que vão deixar de ganhar essa bolada".

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