quinta-feira, 11 de junho de 2015

Governo planeja ferrovia, mas abandona a rodovia que já liga o Brasil ao Pacífico

11/06/2015 - Fato Online

Uma placa colocada ao longo da estrada avisa: "Perigo, pista irregular próximos 30 km". O anúncio é um alerta aos motoristas de que ele deve se preparar para encarar um calvário de inúmeros buracos pela frente. A rodovia é a BR-317, que liga o Brasil ao Peru, a chamada Rodovia do Pacífico. Enquanto o governo federal faz planos para chegar ao Oceano Pacífico por via ferroviária, esquece-se que já há um caminho rodoviário que leva ao mesmo destino. Em pelo menos 50km dos 330km de Rio Branco, a capital do Acre, até Assis Brasil, na fronteira, o tráfego é feito com lentidão por causa das crateras que muitas vezes são fechadas com barro. O Fato Online percorreu a rodovia há duas semanas.

A Estrada do Pacífico, como é chamada a BR-317, liga Rio Branco a Assis Brasil, a última cidade brasileira na fronteira com o Peru. O trajeto mostra vários contrastes. Entre as fazendas às margens da rodovia, está a de Darly Alves da Silva, o homem acusado de matar Chico Mendes, em Xapuri. A poucos quilômetros dali, está uma RESERVAextrativista que leva o nome do líder seringueiro. Cerca de 70km depois, fica Cobija, uma zona franca encravada no meio da floresta boliviana.

O trecho até a metade da viagem não oferece grandes problemas, a não ser os animais na pista. Entretanto, próximo à fronteira, o estado da rodovia é precário, e não há sinais de que a recuperação esteja próxima. O PIL (Programa de INVESTIMENTOS em Logística), anunciado pelo governo nesta semana, não contempla a BR. Aliás, nenhuma rodovia no Acre. Com baixa atratividade privada, a região Norte do país fica refém dos investimentos do governo federal. O novo PIL incluiu apenas um trecho de rodovia em Rondônia (BR-346/RO/MT) e outro no Pará (BR-163/MT/PA). Mas o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) garante que a BR-317 será recuperada.

Chuvas e perigo

As últimas chuvas tornaram a estrada ainda mais perigosa, oferecendo risco para quem trafega por ela. Os acidentes causados pelos buracos são constantes, já que é normal motoristas trafegarem na contramão para desviar das crateras ou dos deslizamentos na pista causados pela chuva. Nos últimos dois anos, o Acre sofreu várias enchentes, principalmente em cidades cortadas pela BR-317, como Xapuri, Epitaciolândia, Brasileia e Assis Brasil, na região conhecida como Alto Acre, no sul do estado.

Pela BR-317 passam grandes carretas, brasileiras e de outros países da fronteira, transportando vários tipos de produtos para o Peru e a Bolívia. E essa também foi uma das causas da destruição parcial da estrada. Os ônibus que faziam o trecho entre Rio Branco e Lima deixaram de rodar por causa das precárias condições da Rodovia do Pacífico.

O anúncio dos estudos para a construção da ferrovia foi feito no mês passado, quando a presidente Dilma Rousseff se encontrou em Brasília com o primeiro-ministro da China, Li Keqiang. O empreendimento faz parte de INVESTIMENTO de US$ 53 bilhões, no fundo de financiamento à infraestrutura, que inclui investimentos em outras áreas, como a de energia elétrica. O fundo será gerido pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco de Desenvolvimento chinês.

O estudo da ferrovia Transoceânica é semelhante ao da BR-317, a partir de Mato Grosso. Está previsto que ela ligue os dois oceanos. No Brasil, o trajeto será iniciado em Porto do Açu, no Rio de Janeiro, seguindo para Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre. Dentro do Peru, o trecho iniciará em Iñapari, e depois para Puerto Maldonado, Cuzco, descendo até o Porto de Ilo, no Oceano Pacífico.  

Dnit explica

O Dnit informou que vai fazer serviços de recuperação e manutenção em toda a extensão da BR-317, no trecho do Acre. Em fevereiro deste ano, começou a valer o contrato de recuperação do trecho entre o quilômetro zero, na divisa com o Amazonas, e o quilômetro 90,7, que terá condições de trafegabilidade garantidas continuamente até abril de 2017, com um INVESTIMENTO de R$ 7,4 milhões.

Além disso, conforme o Dnit, foi licitada a recuperação do segmento entre os quilômetros 90,7 e 236,7, no qual serão investidos R$ 9 milhões. Esse é um dos piores trechos da estrada. "No momento, o Dnit faz os preparativos jurídicos e administrativos para celebração deste contrato", explicou o departamento, acrescentando que, no último dia 12, foram abertas as propostas para a recuperação do todo o trecho entre o quilômetro 236,7 e o quilômetro 405,6 (Assis Brasil, na fronteira). No momento, o órgão avalia as propostas das empresas.

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